Nem tudo era tão claro quando eu a conheci. Eu já expliquei em outro post de onde veio tudo isso, mas é claro que tudo que expliquei sobre o sonho de casar cedo é muito pessoal. Falei muito de sonhos meus, mas casamento tem que ser sonho conjunto, casamento e filhos são sonhos que eu de forma alguma tenho como realizar sozinho.
Quando eu conheci a Rô e me apaixonei por ela em pouco tempo estávamos namorando e em pouco tempo descobrimos esse problema: A Rô não tinha nenhuma idéia de casar cedo e ao contrário de mim ela esperava nunca ter filhos na vida. Mas o amor começou muito forte em nós, a gente não tinha como brigar sobre isso tão cedo numa relação que mal começara. As poucas vezes que conversamos nisso ambos deixaram claro seus objetivos e expectativas. Nem meu sonho estava tão claro na minha cabeça, a clareza do post anterior foi construída ao longo do tempo e na época dessas primeiras conversas eu achei que tudo poderia mudar um dia do meu lado ou do lado dela. E eu de certa forma esperava um pouco que fosse o lado dela a ceder mais tarde.
Não foi um assunto que incomodou de cara. A gente estava só se curtindo e tudo eram mil maravilhas na nossa vida. Nós tivemos muito orgulho quando chegamos em 3 anos de namoro sem nenhuma briga. Existiu sim um tópico nas primeiras semanas de namoro que gerou atritos, isso não é assunto pra agora e o fato é que nós assumimos isso para nós e gostávamos de falar para os outros: 3 anos de namoro sem brigas.
Não é surpreendente e nem estranho perceber que todos os amigos assustaram com nossa separação. Viramos de certa forma o casal modelo em duas turmas distintas que não se conhecem. Mesmo depois de brigas começadas, lá pelos 3 anos e meio de namoro, nunca deixamos transparecer os nossos problemas quando estávamos em público. Também, os nossos problemas eram tão pessoais que geralmente não geravam motivos para aflorar em público.
Mas nessa época um dos problemas que surgiu foi o dito problema do casamento. Não era bem esse o termo que usávamos. A gente sempre falou que iríamos nos casar, desde os primeiros 4 meses de namoro, mas era como se fosse de brincadeira. Quando começamos a falar mesmo de morar juntos os problemas começaram a aflorar. O problema da faculdade dela que já era de 5 anos, um ano concluído e DPs começando a rolar, ou seja, muito tempo até a formação. Para o meu lado o assunto era outro, responsabilidade financeira, noções de deveres da casa e coisas do tipo. Tem o real problema da relação também apareceu, mas ele não era abordado de forma direta nessa época.
Apesar de trabalhar eventualmente com bicos e às vezes trabalhos maiores, alguns projetos, eu não conseguira formar empresa, como sonhava, e ser meu próprio chefe. Não era pra mim, não mesmo. Mas a impressão era que eu não podia manter disciplina e dedicação suficiente. Essa época a Rô me ajudou muito, incentivou muito e até pressionou um pouco para que eu tivesse um emprego mais sério ou uma melhor dedicação e estabilidade com essa coisa de dinheiro. Se eu realmente quisesse casar com ela, qual seria o nosso futuro se qualquer um dos dois se mostrasse com problemas financeiros? Eu que já estava nessa vida de trabalho e ganhar dinheiro precisava “mostrar serviço” pra ela.
Eu nunca me dei bem com essa parte da Rô. Muito prática, muito racional, poucos sonhos, muito “pé-no-chão”. Ela não conseguia abstrair e sonhar comigo. Ela sempre ficou apegada a essas coisas mais materiais, o que mais pra frente eu descobri ser outro problema que se mascarava atrás disso. Mas o conflito foi aparecendo e ficando mais forte. Quanto eu consegui um ótimo emprego e tinha dinheiro pra sustentar os dois, já que a faculdade dela é pública, esse assunto ficou mais constante.
Eu insistia para que ela pensasse nisso, conversasse comigo sobre essas coisas de morar junto. Ela ficava na parte prática e eu só queria que ela sentisse o mesmo desejo de morar junto, viver junto. A situação apertou. Eu com meu sonho de sempre, de casar, de ter filhos, de ser parte e pai de uma família. Ela com receios profissionais estava se sentindo pressionada por mim. Eu comecei a procurar apartamento pra morar no começo de 2006. Talvez eu não estivesse pronto de fato para isso, nessa época tivemos algumas discussões sobre o assunto. Já no começo de 2007 quando voltei a procurar apartamento para morar sozinho – sem ela – esses atritos foram de mais.
Eu já expliquei que o problema de verdade da separação se manter foi a minha impulsividade e o que ela deu nome de “patadas” que eu dava nela. Mas o motivo da separação, a gota d’água foi uma suposta pressão para morarmos juntos, para casarmos.
Não é comum um homem pressionar uma mulher para casar. Geralmente quando existe pressão de um lado é a mulher que faz esse papel. No nosso relacionamento foi ao contrário. Eu queria casar. Eu fiz tudo pra isso. Sempre. Ela já ficava na defensiva. Aos poucos fui entendendo os motivos.
Quando separamos eu já estava fazendo terapia a um ano e 3 meses. Eu já buscava a resposta para tudo isso. Eu já percebia a algum tempo que isso estava me incomodando. Para mim foi um sinal de que eu estava evoluindo com o problema de falar tudo na cara quando eu vi que tinha semanas que eu segurava esse assunto. Eu queria muito poder conversar com ela sobre tudo isso. Nós tínhamos em comum acordo a decisão de só morarmos juntos depois que ela se formasse, apesar de distante e apesar da Rô saber o meu sonho.
Alguma coisa estava faltando mesmo assim. Por que é que a Rô se incomodava tanto com esse assunto? Por que é que mesmo eu tendo dito pra ela que eu não queria que ela casasse comigo agora ela ainda assim se sentia pressionada? Essas perguntas estavam presentes na minha cabeça a algum tempo e eu não estava “dando patadas” e nem explodindo com ela.
No entanto estava demorando de mais. Um dia que começou ruim, que eu estava mal-humorado e que a Rô pelo visto acordou meio mal também, com o pé esquerdo agente começou a conversar. Não vem ao caso como aconteceu mas em dado momento da conversa a Rô falou algo do tipo: “Olha só que situação eu estou: Ou eu caso logo, ou eu fico solteira”. Minha impaciência e preguiça de mais uma vez tentar explicar deixaram essa mensagem passar. Ficou isso no ar. Não era o que eu achava, mas eu respondi um “pois é, é mais ou menos isso”.
É engraçado, acabamos nos separando aparentemente por causa dessa conversa. Dessa necessidade de casar logo. Mas não era verdade. O que aconteceu e que eu só fui entender depois foi o seguinte:
A Rô tem problemas com a família. Ela tem medo de enfrentar a situação de sair de casa. Ela é a filha mais velha e os outros ainda não estão perto dessa decisão. Ela está fazendo com dificuldade a segunda faculdade, teve problemas com a família quando deixou a primeira e o maior medo da vida dela é deixar a família e depois fracassar e ter que voltar de cabeça baixa para a casa dos pais. Esse medo é tão grande nela que ela não consegue nem ver como nós podíamos dar certo. O medo era tão grande que eu não podia de forma alguma conversar com ela sobre isso. Por isso que ela desprezava esse assunto.
Eu demorei pra perceber isso e eu nunca consegui explicar isso pra ela, fazer com que ela assumisse isso, com que ela visse que o problema não era a minha pressão para casar e nem os pequenos problemas práticos dela. O problema era que ela tem medo de sair de casa e eu precisava conversar sobre sair de casa. Eu queria sonhar com ela com um futuro distante do nosso casamento e ela se sentia pressionada achando que eu queria que ela se preparasse para casar mais cedo do que ela queria.
Nesse clima de insatisfação com o namoro nós separamos. Foi dia 24 de fevereiro, uma semana depois de fazermos 6 anos de namoro.