Crianças no colo
Hoje tive um sonho longo. Eu não costumo lembrar dos sonhos, mas esse eu lembro que foi longo apesar de só lembrar de dois pedacinhos dele.
Estávamos em Belo Horizonte, na casa da minha bisavó, e estava tendo uma festa lá. Na vida real a casa não vê festas como essa do sonho nunca por causa do jeito das pessoas que lá vivem. Mas seria bem possível uma festa assim se alguém organizasse – meus sonhos são muito regradinhos. Tava cheio de gente que não tinha como andar direito – vai não tanto, mas quase isso. E em dado momento chegaram várias pessoas, particularmente várias crianças. Tinha uma criança que já tinha, digamos, 6 anos carregando uma outra bem menorzinha no colo. Eu já peguei a duplinha de dulas meninas lindas no braço direito e levantei as duas, com cuidado, mas com segurança ao mesmo tempo. Peguei um garotinho no braço esquerdo e comecei a falar com eles com muitos sorrisos e risadas e bom-humor. Outro garoto tentava subir nas minhas costas, e várias crianças, inclusive as que já estavam na festa se juntaram e eu falei: “Vamos brincar todo mundo?”. As crianças responderam todas ao mesmo tempo que sim e eu pedi pra antes tirarem uma foto com a Rô junto, que já tinha pego outra criança no colo. Tinha umas 5 ou 6 crianças ao todo.
A Rô me olhou com o olhar mais apaixonado que ela podia ter. Os olhos dela brilhavam, ela estava achando lindo que eu estava me dando bem com as criancinhas de 2 até 6 anos mais ou menos. As crianças gostavam de mim, eu adorava elas, era um momento muito lindo e muito feliz. E os olhos da Rô me afogaram nesse sentimento lindo entre nós e eu me senti completo vendo que ela gostava tanto de mim, que eu me dar bem com crianças era mais um motivo pra ela me amar tanto. Aquele olhar valia mil vezes mais do que a foto que eu pedi que tirassem pra depois poder olhar pra esse momento novamente. Com um pouco de sorte o olhar dela sairia ao menos parecido na foto que eu poderia guardar e olhar pra sempre quando estivesse com saudades dela me olhando assim. Eu queria que a foto ficasse perfeita, pedi pra tirar de novo duas vezes e depois falei que estava ótima, mesmo que o cara não tirava bem a foto nem com reza-brava.
Foi um sonho muito gostoso. Essa sensação é muito real e é praticamente uma lembrança melhorada de momentos semelhantes que a Rô me olhou assim. A Rô é assim, ela adora me ver com crianças, ela sabe que um dos meus maiores sonhos é ou era ter filhos. E ela trai totalmente o seu discurso de nunca querer ter filhos quando ela me olha dessa forma. Vem de dentro dela, sabe? Ela ia chorar de felicidade se me visse brincando e sorrindo com um filho nosso. Vem da alma dela esse sentimento e esse olhar que ela já me deu mais de uma vez me faz ter certeza disso.
Eu me lembro de pelo menos umas 3 ou 4 vezes que ela não só me olhou dessa forma, mas em alguns dos casos até insistiu que eu fosse lá pegar a criança ou bebê no colo, quis tirar foto e tudo mais ou que ela ficou um tempão olhando uma foto que eu seguro um neném, mesmo que ela não me conhecesse na época em que a foto foi tirada. É impossível negar o nosso amor e a nossa paixão nessas horas, a emoção vai toda pro olhar dela, eu me sinto bem e renovado, pronto pra passar todas as dificuldades dessa vida por uma semana quando ela me olha desse jeito. E não tem jeito, é muito raro ela me olhar assim. Claro tem muitos níveis de olho-no-olho que me deixam muito feliz e muitos jeitos de sentir que ela me ama. Mas criança no colo é tiro e queda. Sempre rende esse olhar.
Mas isso tudo virou uma armadilha. Acho que tem quase dois anos que essa cena não acontece. A faca era de dois gumes, o tiro saiu pela culatra. Eu tenho evitado esses momentos, tenho evitado as crianças. Isso é muito triste. Mas eu tenho certeza que ela olharia assim de novo pra mim. Em vez de render essa linda sensação e me transbordar de felicidade eu acho que se ao receber esse olhar dela eu entraria em parafuso. Todas as nossas conversas e decisões sobre esse assunto viriam a tona na minha cabeça.
Eu e ela já conversamos diversas vezes sobre isso e dessa última vez que separamos e que comecei esse blog ela deixou claro que nunca viria a ter filhos. Mais uma vez ela colocou em palavras a decisão racional dela, que vence toda essa emoção que eu vejo nesse olhar. E eu deixei claro pra ela que ela é o sonho mais importante da minha vida e que eu não vou abrir mão dela por que eu gostaria de ter filhos um dia. Se pra ter a Rô eu preciso não ter filhos, então eu não vou ter filhos. Não vou trocar a única coisa que me dá motivo pra viver pelos segundo lugar. Eu já subi no pódio em primeiro lugar quando começamos a namorar, não vou trocar pelo segundo lugar, não faz sentido.
Não vou mudar de idéia quanto a isso. Ela pode um dia resolver ter filhos, mas eu nunca vou pressiona-la, virá dela, se vier. Mas não conto com isso nem de longe. Eu sei que não vamos ter filhos e pronto. Mas não quer dizer que seja fácil isso. Brincar com as crianças dos outros na frente dela pode ser difícil daqui pra frente, pode ser que eu evite, mas eu não posso evitar isso pra sempre e nem quero. Eu já conversei com a minha analista sobre isso e existem várias saídas para esse conflito, dentre elas ser o tio da perua da escola, levando 10 crianças pra escola, ou até trabalhar como monitor de acampamento ou coisas assim. Tudo isso está resolvido na minha cabeça mas não quer dizer que não seja triste pra mim lembrar de toda essa história, ou que não seja difícil encarar desde tão cedo que eu nunca vou ocupar os 3 lugares do pódio ao mesmo tempo.
Tenho medo de chorar se eu olhar a Rô nos olhos quando eu estiver com uma criança no colo e ela me olhar com esse sentimento tão profundo que nem ela admite que tem quando me vê mostrando ao mundo que eu poderia ser um bom pai. Eu quase chorei outro dia quando alguém que não sabe nada dessa história virou pra mim e falou que eu vou dar um ótimo pai quando chegar a minha hora. Quase chorei por saber que essa hora nunca vai chegar.
2 Responses to 'Crianças no colo'
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on junho 22nd, 2007 at 2:50 pm
Ai, joão… eu quase chorei lendo esse post. até visualisei seu sonho, sabe? Eu tb acho que vc seria um pai excepcional. Mas também acredito que suas escolhas sao bem pensadas, e que às vezes é preciso escolher entre 2 sonhos por serem incompativeis. Mas ainda dá pra torcer por mudanças, ne? O amanhã a deus pertence. =)
on junho 29th, 2007 at 12:32 am
Desconfio que dentro da Rô bate um desejo de realizar seu sonho de ser pai. Mas ela é durona… não vai admitir…
Não por enquanto. Mas por acaso a vida a leve para esse caminho e eu tenho certeza q, assim como vc será um bom pai, ela será uma ótima mãe.
Não diga NUNCA!!! O Nunca não existe, João!!!
Sinto que um dia, a Rô vai amadurecer e querer com todas as forças aproveitar cada fragmento de alegria que a vida pode proporcionar, dentre elas fazer vc o homem mais feliz da face da Terra, ocupando os três lugares no pódio!!
Um ótimo fds pra ti!